Piquetes e palavras de ordem na noite em que os aviões ficaram em terra e o metro parou

Chamam-lhe “o coração do metro”, um edifício junto ao Parque Eduardo VI, em Lisboa, onde se concentra um piquete de greve – homens de colete amarelo fluorescente com a inscrição “piquete de greve” nas costas, que zelam para que nenhum trabalhador se apresente ao serviço. E também para “garantir a segurança de pessoas e bens”.

Às 23h35 já não há muitas carruagens com passageiros nas linhas do metropolitano da cidade, explica Luís Franco, presidente do SINDEM, o Sindicato da Manutenção do Metropolitano. “É ali que o chefe da sala de comando vai desligar dentro de momentos a energia e sem energia não há mais comboios”, explica com algum entusiasmo, apontando para um andar superior do edifício.

A circulação só será retomada às 6h30 da manhã de sexta-feira, garante. Atrás de si, uma faixa junto à entrada explica a quem passa porque param os trabalhadores do metro: “Contra a antecipação do fecho da rede. Abaixo o Governo. Viva a greve geral.”

Há figuras públicas a juntar-se ao piquete, nesta noite fria, como o advogado Garcia Pereira, que diz que hoje também faz greve contra “as medidas terroristas deste Governo”. O ambiente é descontraído e até se canta os parabéns a uma delegada sindical, com as câmaras de televisão a gravar. Os piquetes, esses, envolvem “entre 100 e 200 trabalhadores” e vão manter-se, em vários pontos da cidade ao longo de todo o dia. Com a expectativa de que não será preciso convencer muita gente a não furar a greve. “Estes são trabalhadores que não vergam”, diz Garcia Pereira.

“Um senhor não queria aderir”

O Metropolitano de Lisboa foi um dos locais visitados por Carvalho da Silva, secretário-geral da CGTP-Inter Sindical, e pelo secretário-geral da UGT, João Proença, nas horas que antecederam o dia da greve geral. Uma greve que se começou a fazer sentir muito antes da meia-noite em vários pontos da cidade – desde logo nas ruas, com menos trânsito do que é habitual.

Carvalho da Silva passou ainda pelo aeroporto de Lisboa, pelo parque de viaturas pesadas dos Olivais, de onde todas as noites saem dezenas de camiões de recolha de lixo, pelo Hospital de São José, onde praticamente não se avistavam doentes, pela Torre de Controlo do Porto de Lisboa, em Algés, e pela estação de comboios do Rossio. Em todo o lado, o mesmo cenário: piquetes de greve, bandeiras e cartazes, e a quase inexistência de utentes.

Houve colegas a tentar convencer colegas a não trabalhar – “Apareceu um senhor que não queria aderir, falámos, não sei se o consegui convencer ou não, ele balançou um bocadinho e foi lá dentro pensar…. disse que ia ver”, contava um dirigente sindical à porta do parque de viaturas pesadas dos Olivais.

Lá dentro, dezenas de camiões verdes parados. E alguns trabalhadores a discutir o “estado do país”. “Chamo-me Isabel, tenho 48 anos, sou cantoneira. Ganho 532 euros e a câmara quer cortar nas horas extraordinárias. Não sei o que farei sem as horas extraordinárias”, desabafava. “Tenho um filho de 19 anos desempregado e uma casa por minha conta porque sou divorciada. Se cortarem nas horas extraordinárias tenho de arranjar um segundo emprego… o problema é que não sei se conseguirei. Como isto está!”

Também houve algumas tentativas de protestos mais aparatosos – “Há pouco recebemos a informação que havia uma ocupação de linha no Entroncamento”, contava, na estação do Rossio, José Oliveira, do Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário. Eram 00h30 e na estação não se avistava mais ninguém que não trabalhadores em “missão piquete” e dirigentes sindicais.

“A greve é um direito”

A zona das partidas do Aeroporto da Portela oferecia um cenário raro: nem filas, nem funcionários, ninguém nos balcões de check in, apenas um ou outro passageiro de ar desolado, a empurrar carrinhos com malas. “Cancelado” era a palavra escrita a vermelho à frente de quase todos os voos que apareciam no painel de informações.

À porta ainda se ensaiaram alguns gritos de ordem – quando Carvalho da Silva chegou. “Esta greve é geral, o ataque é brutal”, gritaram trabalhadores com bandeiras vermelhas e coletes a condizer. Mas rapidamente desmobilizaram. Ao longo do dia de hoje estão previstas apenas três partidas: um avião para o Funchal, outro para a Terceira e outro para Ponta Delgada, segundo Vitor Mesquita, do Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos. “Estou convencido que vai ser uma paralisação muito grande. Porque isto no sector da aviação está muito complicado. Querem privatizar a TAP, os aeroportos… é um crime o que se está a fazer.”

Junto à Torre de Controlo do Porto de Lisboa, em Algés, já perto da meia-noite, Carvalho da Silva tinha mais notícias para receber: o piloto de barra, Graco Trindade, dirigente do Sindicato dos Capitães Oficiais, Pilotos, Comissários e Engenheiros da Marinha Mercante, falava de uma “adesão total” nos portos portugueses, com 70 navios afectados (de paquetes a navios de transporte de mercadorias e combustível) e a desviar a rota. Uma greve que afecta também o controlo de tráfego marítimo – o que implica que muitos navios da costa não receberão ao longo do dia de hoje informações rotineiras (“informações de meteorologia, por exemplo”, disse).

Ao longo do périplo por ponto-chave da greve, Carvalho da Silva ia sendo informado por dirigentes de vários sindicatos do curso da paralisação. E ia-se desdobrando em entrevistas e em directos para estações de televisão. “O que pensa do facto do primeiro-ministro dizer que esta greve não acontece num momento oportuno?”, perguntava um jornalista. “Se dissesse o oposto seria o primeiro governante a apoiar uma greve”, respondia. “A greve é um direito e a democracia não se esgota no direito ao voto. As pessoas também têm direito a viver com dignidade, com menos pobreza e com mais justiça.” E esta greve, disse Carvalho da Silva repetidas vezes, é, sobretudo, contra o “empobrecimento dos portugueses”.

O que é uma necessidade impreterível?

Ao PÚBLICO explicaria mais tarde que o facto de esta ser, provavelmente, a sua última greve geral enquanto secretário-geral da CGTP, não tem um significado especial. “É mais um passo num longo percurso”, disse, sem deixar, no entanto, de se congratular com o facto de tudo indicar que o país viverá hoje “uma enorme paralisação”.

“Na recolha de resíduos sólidos a paralisação é praticamente total. O movimento marítimo vai estar praticamente interrompido. A adesão também é total na aviação, com a excepção dos três voos [que fazem parte dos serviços mínimos decretados]. Na Soflusa é total. Na CP, os comboios que estava previsto que parassem não circulam…” E Carvalho da Silva continuava, à medida que ia recebendo telefonemas de outros pontos do país, com mais informações.

Por volta da uma da manhã, o destino era o Hospital de São José, em Lisboa. Nelson Raleiras, do Sindicato da Função Pública, garantia que todos os assistentes operacionais que deveriam estar ao serviço no turno da noite, que começara às 23h00, declararam fazer greve. E Isabel Barbosa, do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, explicava que em 83 enfermeiros, apenas seis estavam a trabalhar.

Os serviços mínimos estavam, contudo, a ser cumpridos. Serviços que a lei obriga que se mantenham, mesmo em dia de paralisação geral, quando estejam em causa “necessidades sociais impreteríveis”. Mas que, pelo menos em alguns sectores, são contestados. “Dois comboios internacionais, para França e Espanha, foram considerados serviços mínimos. Sem uma necessidade social impreterível que o justifique… Por que é que um comboio para Espanha é uma necessidade impreterível? Só se for porque temos um secretário de Estado que diz que a malta deve é emigrar para o estrangeiro”, ironizava José Oliveira, do sindicato do sector ferroviário.

Andreia Sanches, Público

http://economia.publico.pt/noticia/piquetes-e-palavras-de-ordem-na-noite-em-que-os-avioes-ficaram-em-terra-e-o-metro-parou—1522302#.Ts4JckcRQ94.facebook

About Marc Leprêtre

Marc Leprêtre is researcher in sociolinguistics, history and political science. Born in Etterbeek (Belgium), he lives in Barcelona (Spain) since 1982. He holds a PhD in History and a BA in Sociolinguistics. He is currently head of studies and prospective at the Centre for Contemporary Affairs (Government of Catalonia). Devoted Springsteen and Barça fan…
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