Cize, no mar azul dos céus

Há um exercício inútil, a que alguns já se entregaram, sem êxito: encontrar “substituto” para Cesária Évora. Ela nunca se incomodou com isso, talvez porque soubesse que era tarefa impossível.

O mistério que sempre envolveu a sua voz de um timbre inigualável, a calma profunda e melancólica que emanava das suas canções, fossem elas mornas ou coladeras (género, mais ritmado, a que dedicou o seu último disco, “Nha sentimento”), não tem nem terá paralelo noutras cantoras cabo-verdianas, mesmo nas melhores. Tal como Amália não teve nem terá paralelo noutras fadistas, e tantas há e houve, algumas geniais, também Cesária foi estrela de exemplar único no belo firmamento da música cabo-verdiana e também no da música universal. 

Musicalmente cresceu tarde, de Paris para o mundo, porque o mundo não lhe abriu outras portas antes nem noutros lugares. Teve a ajuda de José da Silva, que percebeu o que nela havia de melhor, mas o resto só podia ter sido dela: a voz, a alma, o gesto, a cabo-verdianidade. Ouvi-la, fosse em que palcos cantasse (e cantou em tantos, de modo incansável), era ouvir e ver Cabo Verde. 

Dificilmente haverá disco tão belo quanto “Mar Azul” e dificilmente cada nova audição das suas escassas oito faixas deixará cada ouvinte imune à emoção. É certo que, em matéria de discos, a sua carreira teve altos (alguns altíssimos) e baixos, mas raramente cedeu à vulgaridade de se deixar desfigurar por modas a que era alheia, mesmo nos duetos com celebridades (de onde aliás se saiu bem), usando-os como tributo à sua arte. 

Sempre cantou (e falou) em crioulo cabo-verdiano, deixando a tarefa de entender o que dizia a tradutores ou interlocutores mais sagazes. Sempre se divertiu nas entrevistas, mesmo quando parecia entediada, sempre falou pouco porque preferia cantar muito, sempre tendeu a desarmar quem queria fazer-lhe perguntas difíceis. 

O tabaco e o álcool foram durante muito tempo seus companheiros nessas conversas, até que, depois do AVC que a obrigou a parar em 2008, a travaram. No início deste mês de Dezembro era já uma certeza: Cesária Évora não voltaria aos palcos. Recomendavam-lhe repouso, muito repouso. 

Na sua casa, no Mindelo, Cesária talvez já não esperasse nada. Mas em 2009, na última entrevista que deu ao PÚBLICO, dizia: “Canto mais um tempo e depois stop!” Para lá disso, apenas um sonho: “Fazer uma casa no campo. E morrer lá”; no Mindelo, onde nasceu e acabou por morrer, mas num hospital, aos 70 anos. Cize, era esse o seu “nominho”, ficará agora a cantar na nossa memória e no mar azul dos céus.

Nuni Pacheco, Público

http://www.publico.pt/Cultura/cize-no-mar-azul-dos-ceus-1525485

About Marc Leprêtre

Marc Leprêtre is researcher in sociolinguistics, history and political science. Born in Etterbeek (Belgium), he lives in Barcelona (Spain) since 1982. He holds a PhD in History and a BA in Sociolinguistics. He is currently head of studies and prospective at the Centre for Contemporary Affairs (Government of Catalonia). Devoted Springsteen and Barça fan…
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